O cérebro deste Monge Budista é 8 anos mais jovem do que o seu corpo

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Durante 14 anos, uma equipa de cientistas do Centro de Mentes Saudáveis da Universidade de Winsconsin-Madison seguiu o desenvolvimento cerebral de Yongey Mingyur Rinpoche, um monge budista e professor de meditação.

De acordo com o LiveScience, o estudo revelou que o cérebro de Mingyur Rinpoche pareceu desacelerar no seu envelhecimento ao longo de uma década.

Mingyur Rinpoche tem 41 anos, mas a sua matéria cerebral parece ser oito anos mais nova do que deveria ser.

“A grande descoberta é que o cérebro deste monge tibetano, que passou mais de 60 mil horas da sua vida em meditação formal, envelhece mais lentamente do que o cérebro do grupo de controlo”, disse Richard Davidson, investigador sénior do estudo e professor de psicologia e psiquiatria na universidade.

Para saber a idade de uma cérebro, basta olhar para a massa cinzenta. “A massa cinzenta é a maquinaria neural do cérebro”, explicou Davidson, que também é o fundador e diretor do Centro de Mentes Saudáveis. “Quando o cérebro atrofia, há um declínio na substância cinzenta”.

O estudo, que foi publicado em fevereiro passado na revista científica Neurocase, examinou as mudanças no cérebro de Mingyur Rinpoche ao longo de 10 anos, desde que o monge tinha 27 anos.

Mingyur Rinpoche era o sujeito perfeito para testar os efeitos a longo prazo da meditação no cérebro humano por causa da sua vida notável. Acreditando ser a sétima encarnação de Yongey Mingyur Rinpoche, mestre das linhagens Karma Kagyu e Nyingma do budismo tibetano, Mingyur Rinpoche guia outros praticantes budistas séniores nos métodos da meditação budista desde a adolescência.

Como tal, o seu cérebro experimentou uma exposição rotineira intensa à meditação. Estudos anteriores sugeriram que existe uma conexão entre a meditação de rotina e a desaceleração do envelhecimento biológico. Esta descoberta parece acrescentar evidências a essa hipótese.

Os investigadores analisaram o cérebro de Mingyur Rinpoche quatro vezes usando ressonância magnética estrutural para ver as alterações do cérebro ao longo do tempo. Depois, os cientistas estimaram a idade do cérebro através da massa cinzenta. Quando examinaram o cérebro de Mingyur Rinpoche aos 41 anos, o cérebro parecia pertencer a um homem de 33 anos.

Além disso, a análise revelou que o cérebro do guru da meditação também“amadureceu” cedo. Os investigadores ainda estão a tentar descobrir o que significa “amadurecer”, mas têm uma teoria.

Ainda existem muitas possibilidades que poderiam explicar o cérebro “jovem” de Mingyur Rinpoche. Por um lado, os cientistas ainda não determinaram definitivamente se foi apenas a sua prática de meditação que fez com que o seu cérebro envelhecesse mais devagar.

Alguns investigadores pensam que é possível que os cérebros daqueles que nascem nas altas altitudes do Tibete, como Mingyur Rinpoche, possam naturalmente envelhecer mais devagar devido ao ambiente.

“A grande descoberta é que o cérebro deste monge tibetano, que passou mais de 60 mil horas da sua vida em meditação formal, envelhece mais lentamente do que o cérebro do grupo de controlo”, disse Richard Davidson, investigador sénior do estudo e professor de psicologia e psiquiatria na universidade.

Para saber a idade de uma cérebro, basta olhar para a massa cinzenta. “A massa cinzenta é a maquinaria neural do cérebro”, explicou Davidson, que também é o fundador e diretor do Centro de Mentes Saudáveis. “Quando o cérebro atrofia, há um declínio na substância cinzenta”.

Foto: Nicolas Häns / unsplash

Menino escolhido por Dalai Lama como 2.ª figura do Budismo desapareceu há 25 anos.

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Gedhun Choekyi Nyima tinha apenas seis anos quando desapareceu com a sua família, após ter sido escolhido por Dalai Lama para ser o 11.º Panchen Lama, a segunda figura mais importante do budismo do Tibete. Desde então, pouco se sabe sobre o que lhe aconteceu.

A China, que considera que o Tibete faz parte do seu território, nomeou outro menino, Gyaltsen Norbu, para a posição depois do desaparecimento de Nyima. Norbu raramente é visto e acredita-se que passe a maior parte do tempo em Pequim. É geralmente visto como uma figura política sob o controle de Pequim e não partilha a fama global do Dalai Lama.

Na passada terça-feira, Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse, de acordo com a revista norte-americana Time, que Nyima “recebeu educação obrigatória gratuita enquanto criança, passou no exame de entrada na Universidade e tem agora um emprego”.

Segundo o político, Nyima, de 31 anos, e a sua família desejam não ser perturbados nas suas “vidas normais actuais”.

A disputa entre Pequim e o Dalai Lama, que fugiu para exílio em 1959, prende-se com quem determinará o futuro do budismo tibetano, que ainda domina fortemente o povo da região dos Himalaias. A China diz que esse território é seu há séculos, mas muitos tibetanos acreditam que era independente.

O autodeclarado governo exilado do Tibete, na Índia, marcou o 25º aniversário do desaparecimento de Gedhun Choekyi Nyima, pedindo a Pequim para explicar o seu paradeiro.

“O sequestro do Panchen Lama pela China e a negação forçada da sua identidade religiosa e direito de praticar no seu mosteiro, não só é uma violação da liberdade religiosa, mas também uma violação grave dos direitos humanos”, defendeu o parlamento tibetano, conhecido como Kashag, em comunicado.

Mike Pompeo, secretário de Estado dos Estados Unidos, emitiu um comunicado a pedir à China que “torne público imediatamente o paradeiro de Panchen Lama e defenda a sua própria constituição e compromissos internacionais para promover a liberdade religiosa para todas as pessoas”.

O Dalai Lama nomeou o Panchen Lama original com a ajuda de lamas tibetanos treinadosna leitura de presságios e sinais.

Por outro lado, a China alega que o reencarnado apenas pode ser escolhido fazendo um sorteio com uma urna de ouro, um método usado para escolher o seu próprio candidato sob o controlo do oficialmente ateu Partido Comunista.

Foto: Evgeni Zotov / Flickr

Para de reclamar e adapta-te, diz Monja Budista sobre o coronavírus.

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No Budismo existem factos e problemas. Os factos não têm mais solução. Já ocorreram. Os problemas podem ser resolvidos. A monja Gen Kelsang Chime afirma que o coronavírus é um problema. “Mas que precisa ser resolvido com a mente tranquila e serena. Caso contrário, o problema vira um facto. Então, pare de reclamar e adapte-se. Não atrapalhe quem está procurando uma solução”, afirma. De acordo com Chime, os budistas acreditam na impermanência das coisas. “Acreditamos que tudo é mutável. O coronavírus mostrou isto: qualquer coisa pode acontecer com qualquer um a qualquer momento”. A pandemia, explica ela, é um efeito de causas passadas. “Quando as condições se reúnem com as causas, as experiências surgem. Por isto não fomos apanhados de surpresa. Sabemos que uma calamidade assim pode surgir de repente. Quem poderia imaginar que um mês depois do Carnaval estaríamos isolados? Os budistas estudam e sabem que tudo pode acontecer. O segredo agora é manter a mente calma”, enfatiza. Para ela, o coronavírus tem um lado positivo. “Todo o tipo de crise passa. Se as pessoas querem ajudar de alguma forma é preciso deixar as queixas de lado. “Sem reclamações as coisas vão ajustando. O que importa é estar vivo e salvo em casa. Por outro lado, depois que a pandemia passar, acredito que se dará mais valor aos empregos, amigos e famílias. Até aquele que é considerado ‘chato’ está sendo lembrado com saudade”, brinca. Conclui dizendo que é preciso entender que para superar esta crise é preciso apoiar e proteger um ao outro. “Fique em casa, cuide dos seus, que estará dando a sua contribuição. Vamos rezar”, finaliza ela.

Cinco Lições Budistas para lidar com a ansiedade na era do coronavírus.

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Centros e templos budistas de meditação em países atingidos por coronavírus em todo o mundo foram fechados ao público para cumprir as medidas de distanciamento social.

Mas os professores budistas estão oferecendo os seus ensinamentos a distância, a fim de lembrar às suas comunidades os principais elementos da prática.

Na Ásia, monges budistas têm cantado sutras para proporcionar alívio espiritual. No Sri Lanka, o canto monástico budista foi transmitido pela televisão e pelo rádio. Na Índia, os monges cantaram na sede da iluminação do Buda, o Templo Mahabodhi, no estado de Bihar.

Os líderes budistas argumentam que os seus ensinamentos podem ajudar a enfrentar a incerteza, o medo e a ansiedade que acompanharam a disseminação da Covid-19. Esta não é a primeira vez que os budistas oferecem seus ensinamentos para proporcionar alívio durante uma crise.

Budismo envolvido

O mestre zen Thich Nhat Hanh cunhou o conceito de “budismo engajado”. Durante a Guerra do Vietname, diante da escolha entre praticar em mosteiros isolados ou se envolver com o povo vietnamita em sofrimento, ele decidiu fazer as duas coisas. Mais tarde, ele ordenou um grupo de amigos e estudantes para esse tipo de prática. Nos últimos anos, muitos budistas se envolveram activamente em questões políticas e sociais em grande parte da Ásia e também em partes do mundo ocidental. Os cinco ensinamentos a seguir podem ajudar as pessoas nos tempos actuais de medo, ansiedade e isolamento.

1) Reconheça o medo

Os ensinamentos budistas afirmam que sofrimento, doença e morte devem ser esperados, compreendidos e reconhecidos. A natureza da realidade é afirmada num breve canto: “Estou sujeito ao envelhecimento… sujeito à doença… sujeito à morte”. Esse canto serve para lembrar às pessoas que o medo e a incerteza são naturais para a vida comum. Parte de fazer as pazes com a nossa realidade, não importa o que aconteça, é esperar impermanência, falta de controle e imprevisibilidade. Pensar que as coisas deveriam ser de outra maneira, de uma perspectiva budista, acrescenta sofrimento desnecessário. Em vez de reagir com medo, os professores budistas aconselham a trabalhar o medo. Como explica Ajahn Brahm, monge budista theravada, quando “lutamos com o mundo, temos o que se chama sofrimento”, mas “quanto mais aceitamos o mundo, mais podemos realmente desfrutar do mundo”.

2) Pratique a atenção plena e a meditação

A atenção plena (mindfulness) e a meditação são os principais ensinamentos budistas. As práticas de mindfulness visam coibir comportamentos impulsivos com a consciência do corpo. Por exemplo, a maioria das pessoas reage impulsivamente a coçar uma comichão. Com a prática da atenção plena, os indivíduos podem treinar as suas mentes para observar o surgimento e o desaparecimento do acto de coçar sem nenhuma intervenção física. Com a prática da atenção plena, a pessoa pode tornar-se mais consciente, lavar as mãos e evitar tocar no rosto. A meditação, em comparação com a atenção plena, é uma prática mais longa e interior do que a prática de consciência momento a momento. Para os budistas, o tempo a sós com a mente em geral faz parte de um retiro de meditação. O isolamento e a quarentena podem reflectir as condições necessárias para um retiro de meditação. Yongey Mingyur Rinpoche, monge budista tibetano, aconselha observar as sensações de ansiedade no corpo e vê-las como nuvens indo e vindo. A meditação regular pode permitir reconhecer o medo, a raiva e a incerteza. Esse reconhecimento pode facilitar reconhecer esses sentimentos como simplesmente reacções passageiras a uma situação impermanente.

3) Cultive a compaixão

Os ensinamentos budistas enfatizam as “quatro [qualidades] incomensuráveis”: bondade, compaixão, alegria e equanimidade. Os professores budistas acreditam que essas atitudes podem substituir estados de espírito ansiosos e medrosos. Quando as emoções em torno do medo ou da ansiedade tornam-se fortes demais, os professores budistas dizem que é preciso lembrar exemplos de compaixão, bondade e empatia. O padrão de pensamentos de medo e desespero pode ser interrompido, trazendo-se de volta ao sentimento de cuidar dos outros. A compaixão é importante mesmo quando mantemos distância. Phap Linh, outro professor budista, aconselha que este pode ser um momento para que todos cuidem dos seus relacionamentos. Isso pode ser feito através de conversas com os nossos entes queridos, mas também através da prática de meditação. À medida que os meditadores inspiram, eles devem reconhecer o sofrimento e a ansiedade que todos sentem e, enquanto expiram, devem desejar a todos paz e bem-estar.

4) Compreenda as nossas interligações.

As doutrinas budistas reconhecem uma interligação entre tudo. A pandemia é um momento para ver isso mais claramente. Cada acção que alguém toma para cuidar de si, como lavar as mãos, também ajuda a proteger os outros. O pensamento dualista da separação entre o eu e o outro, o eu e a sociedade, se decompõe quando visto da perspectiva da interligação. A nossa sobrevivência depende um do outro e, quando sentimos um senso de responsabilidade em relação a todos, entendemos o conceito de interligação como uma verdade sábia.

5) Use esse tempo para reflectir

Tempos de incerteza, argumentam os professores budistas, podem ser boas oportunidades para colocar esses ensinamentos em prática.

Os indivíduos podem transformar a decepção com o momento actual em motivação para mudar a vida e a perspectiva do mundo. Se alguém reformular os obstáculos como parte do caminho espiritual, poderá usar tempos difíceis para se comprometer a viver uma vida mais espiritual. O isolamento em casa é uma oportunidade para reflectir, apreciar as pequenas coisas e apenas ser.

Artigo de Brooke Schedneck para o Site The Conversation.

Buda não foi um deus e nem será. Foi um ser humano como qualquer um de nós.

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Evitar todo o mal,
cultivar o bem,
purificar a própria mente:
esse é o ensinamento do Buda.
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O budismo carece de explicações mais eloquentes tendo em vista a deturpação que sofre nas mãos de poucos estudiosos e muitos especuladores que não se dão ao trabalho de ir para a segunda página.

Existem alguns factos curiosos que envolvem o budismo e que se propagaram pelos anos sem que fossem devidamente contidos e viram um tipo de “fake news” de décadas. Uma delas é que o budismo é uma “filosofia de vida” e não uma religião.

Ora, filosofia é o conjunto de princípios teóricos que fundamentam, avaliam e sintetizam as ciências particulares e a palavra “religião” é muitas vezes usada como sinonimo de fé ou sistema de crença, mas a religião difere da crença privada na medida em que tem um aspecto público. A maioria das religiões tem comportamentos organizados, incluindo hierarquias clericais, uma definição do que constitui a adesão ou filiação, congregações de leigos, reuniões regulares ou serviços para fins de veneração ou adoração de uma divindade ou para a oração, lugares (naturais ou arquitectonicos) e/ou escrituras sagradas para os seus praticantes. A prática de uma religião pode também incluir sermões, comemoração das actividades de um deus ou deuses, sacrifícios, festivais, festas, transe, iniciações, serviços funerários, serviços matrimoniais, meditação, música, arte, dança, ou outros aspectos religiosos da cultura humana.” Ou seja, não faz sentido classificar o budismo como filosofia e sim como uma religião antiga e muito bem estruturada.

E falando nisso, vamos ao segundo facto curioso: budismo é uma religião ateia! Sim, isso mesmo, não existe a crença em um demiurgo (segundo o filósofo grego Platão – 428-348 a.C. -, o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de facto a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos), ou um deus. Buda não foi um deus e nem será, foi um ser humano como qualquer um de nós, asseguradas as devidas diferenças de entendimento do mundo de cada um de nós. Mas no fim, não temos uma figura criadora e julgadora dos nossos princípios, porém não significa que estamos livres para fazermos o que quisermos sem uma consequência directa.

Toda essa religião é focada num princípio que chamamos de Lei da Originação Dependente que diz que tudo tem um princípio e um fim, gerando novo princípio e novo fim e assim por diante. Ou seja, nada é gerado espontaneamente, tudo tem uma causa e várias condições para existir ou viver. Por exemplo, a causa para uma árvore existir é a semente, mas as condições são o solo, a água, o sol. E essa árvore vai ser a causa de muitas outras que surgirão de suas sementes e daí por diante. Nada ou ninguém precisa interferir nesse ciclo. Isso também ocorre na vida quotidiana.

Reclamamos da situação do país, seja qual for, mas nunca analisamos as causas. Reclamamos da corrupção mas a causa dela é termos políticos corruptos que encontram condições para ter tal postura. Mas qual a causa do corrupto? Quem o elegeu! E talvez a falta de educação adequada seja a causa de eleitores mal informados ou mesmo a cultura de levar vantagem nos leve a reflectir nos nossos políticos as causas e condições que queremos para nós mesmos. Não se trata de uma questão punitiva por um ser superior, trata-se apenas de uma concatenação constante de eventos.

Original de autoria de Monge Hondaku no site Carta Capital

Aplicativos de Meditação erram ao interpretar Mindfulness Budista.

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No mundo stressante de hoje, mindfulness — espiritualidade popular que procura o foco no momento presente — promete aliviar a ansiedade e o stress da vida moderna. Há diversos aplicativos populares, que prometem curar tudo, e têm como alvo uma grande variedade de pessoas: de profissionais urbanos ocupados a quem pratica dieta, e até quem sofre de insónia e crianças.

Mas será que esses apps verdadeiramente promovem ideais budistas ou são produto de uma indústria de consumo lucrativa?

Benefícios para a saúde
Como é praticada nos EUA actualmente, a meditação mindfulness foca em estar intensamente atento, sem nenhum tipo de julgamento, para o que está sentindo no momento. A prática de mindfulness surgiu como um contraponto à tendência que muitos de nós temos de passar tempo demais planeando e resolvendo problemas, o que pode ser stressante.

As práticas de mindfulness, conforme nos aplicativos budistas, envolvem meditação guiada, exercícios de respiração e outras formas de relaxamento. Testes clínicos mostram que o mindfulness alivia stress, ansiedade, dor, depressão, insónia e hipertensão. No entanto, há poucos estudos sobre os aplicativos de mindfulness.

O entendimento popular actual de mindfulness deriva do conceito budista de sati, que é tornar-se atento ao corpo, sentimentos e outros estados mentais.

Nos textos budistas antigos, mindfulness significava não só prestar atenção, mas também lembrar o que Buda ensinou, para ser capaz de discernir entre pensamentos, sentimentos e acções úteis e inúteis. Isso levaria à libertação do ciclo de nascimento e morte.

Por exemplo, o texto budista Satipatthana Sutta descreve não só ter consciência da respiração e do corpo, mas também comparar o corpo ao de um cadáver num cemitério para apreciar o surgimento e a suspensão do corpo.

“A pessoa tem consciência de que o corpo existe só até o ponto necessário para ter conhecimento e atenção. E permanece desapegado, sem se segurar a nada no mundo”, escreve o sutra.

Neste caso, o mindfulness permite que a pessoa aprecie a impermanência, não se apegar a coisas materiais e a procurar conseguir maior consciência para finalmente tornar-se iluminado.

Os primeiros praticantes budistas de mindfulness eram aqueles que criticavam os valores da sociedade de massa e normas culturais como beleza do corpo, laços familiares e riqueza material.

Os apps de mindfulness, por outro lado, encorajam as pessoas a aceitarem e acomodarem-se à sociedade. Elas aprendem a ignorar as causas e condições exteriores do sofrimento e do stress, que podem ser políticas, sociais ou economicas.

Indústria lucrativa
Aplicativos de mindfulness são parte de uma indústria passiva e lucrativa avaliada em cerca de 130 milhões de dólares.

Dois aplicativos, Calm e Headspace, têm cerca de 70% de todo esse mercado. Eles atendem a uma audiência ampla, que inclui consumidores religiosos e o número crescente de norte-americanos que se consideram espirituais, mas não religiosos.

Por exemplo, os norte-americanos passam mais de cinco horas todos os dias colados aos seus dispositivos móveis. Cerca de 80% deles olham para os seus smartphones nos primeiros 15 minutos depois de acordar. Os aplicativos são uma maneira de meditar mesmo na rotina corrida.

O facto de que os aplicativos budistas existem não é surpreendente, pois o Budismo sempre foi muito bom em usar novas tecnologias de mídia para espalhar a sua mensagem. O livro impresso conhecido mais antigo, por exemplo, é uma cópia chinesa do Sutra Diamante, um texto de budista Sânscrito que data ao século 9.

Estariam esses apps simplesmente dando uma nova cara ao Budismo antigo com roupas novas digitais?

Isso é Budismo?
Não há dúvidas de que apps budistas são um reflexo de descontentamento social real. Mas, em análise, mindfulness, quando despida dos seus elementos religiosos, pode distorcer o entendimento sobre Budismo.

Um aspecto chave do Budismo é o conceito da ausência do eu: a crença de que não existe um eu, uma alma ou outra essência imutável e permanente. Ao promover uma abordagem individualista para a religião, portanto, apps budistas vão contra a própria essência da prática budista.

De facto, as descobertas mostram que aplicativos de meditação budista não são uma cura que alivia o sofrimento no mundo, mas mais uma espécie de opioide que esconde os sintomas reais do estado precário e stressante no qual muitas pessoas se encontram hoje.

Neste caso, apps budistas, mais do que curar a ansiedade causada pelos nossos smartphones, só nos deixa mais viciados neles e, no fim, até mais stressados.

Artigo originalmente publicado no The Conversation e adaptado pelo Portal do Budismo.

Monge japonês é maquilhador e inspira budismo LGBTQ+ no país

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Filho de monges, Kodo Nishimura cresceu num um templo. O budismo parecia ser o caminho natural para o jovem que vive em Tóquio. Mas ainda havia outra estrada a percorrer: o desafio de lidar com a sexualidade. Aos 30 anos, Nishimura unificou duas estradas.

Como monge e maquilhador, ele quer “encorajar as pessoas a serem esperançosas e a sentirem-se equilibradas. Uso ferramentas desses dois mundos, tanto a sabedoria antiga quanto a maquilhagem mais moderna, e faço isso para que as pessoas percebam o seu valor e prosperem livres de equívocos”, diz Nishimura ao TAB.

Nishimura viaja o mundo para falar de empoderamento e beleza, tratando a comunidade LGBTQ+ e, de maneira mais ampla, pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade. O seu empenho atraiu a atenção de um individuo. “Conversamos sobre como a sua mãe era intolerante em relação à sexualidade dele por motivos religiosos, e ele procurava ajuda sob uma perspectiva budista. Aprendi no budismo que não temos que sentir culpa por ser quem somos. Hoje ele envia-me fotos usando maquilhagem e saia. Eu amei”, conta.

Nishimura também realiza trabalhos convencionais de maquilhagem para artistas e empresas. “Conheci várias mulheres trans, e notei que elas poderiam beneficiar-se com técnicas melhores de maquilhagem. Ensino as pessoas a como cobrir os tons da barba e a dar uma expressão facial mais redonda e suave ao rosto, para que elas possam parecer com como se sentem por dentro. Sei o que é o desejo de parecer da forma como me sinto por dentro e como isso empodera um indivíduo”, diz.

O maquilhador participou do projecto fotográfico “Out In Japan”, que pretende dar visibilidade às minorias sexuais do Japão por meio de retratos de pessoas LGBTQ+ feitos por fotógrafos aclamados.

“Pensei que você fosse bicha”

“Minha sexualidade não é masculina nem feminina. Identifico-me como ‘género privilegiado’ e isso faz com que eu simpatize com vários géneros”, afirma.

A questão de género logo surgiu na preparação de Nishimura, antes de se tornar monge. No Japão, é comum o banho público em que homens dividem a mesma banheira ao mesmo tempo. Também era assim durante o período em que Nishimura fazia a sua preparação religiosa, ao lado de outros homens. Numa ocasião, após sair do banho num templo onde fazia a sua formação, ele foi apanhado de surpresa por uma frase disparada à queima-roupa por um colega: “Na primeira vez que o vi, pensei que fosse ‘bicha'”.
Nishimura sentiu-se violado e vulnerável. Por que esse assunto aqui e agora?, pensou. A cena revela o tipo de preconceito que Nishimura enfrentou entre outros budistas. Ele próprio tinha receios sobre as consequências da sua escolha. “Eu temia não poder mais sair e continuar sendo eu mesmo, se me tornasse monge”, afirma.

Confuso entre homem e mulher

O budismo na sua essência não discrimina sexualidade ou género. Todos são tratados igualmente. “A questão central do budismo é o sofrimento, a sua origem e sua extinção. […] No budismo não há visão criacionista determinante de géneros, nem é uma religião de fertilidade, o prazer pode realizar-se de várias formas, sem culpa ou julgamento de um sagrado”, diz Tetsuji.

Para Nishimura, a questão de género iria ressurgir noutros momentos. Durante o treino, os futuros monges eram separados entre homens e mulheres. “Eu sentia-me confuso quando eles apresentavam coreografias diferentes para homens e mulheres. Num ritual, homens tinham que passar por cima de uma urna de incenso com a perna esquerda, enquanto as mulheres usavam a direita. Decidi questionar o meu mestre. Ele respondeu que direita ou esquerda não importa, porque o ensinamento de igualdade é a base de nossa denominação, e a coreografia foi criada depois desse ensinamento. Assim, eu poderia escolher aquilo que me deixasse mais confortável. Senti-me validado para me tornar monge, permanecendo fiel a quem sou”, diz.

Queria ser uma princesa

Nem sempre Nishimura teve essa confiança. Durante a infância, ele viu-se isolado na escola por se sentir envergonhado. Na época, não queria ser monge. “Queria ser uma princesa. Eu vestia uma minissaia de minha mãe e dançava as canções da Disney”, lembra.
Certa vez, foi chamado de “bicha” no colégio e decidiu não conversar mais com os outros colegas. Quando chegou o momento de optar por uma faculdade, escolheu estudar nos EUA, influenciado pelas mensagens de liberdade propagadas por músicas e filmes americanos. Estudou Artes em Nova Iorque e aprendeu a pintar e desenhar. Foi nessa época que a maquilhagem virou profissão e um elemento importante de autoafirmação.

Numa ocasião, a sua melhor amiga nos Estados Unidos estava passando por dificuldades com o seu trabalho de escola. “Eu faria qualquer coisa para encorajá-la, então decidi maquilhar a sua pessoa”, diz.

Com um pouco de delineador e maquilhagem, notou que a personalidade dela desabrochou. “Senti a sua alegria reflectida em mim. Isso fez impulsionar o meu desejo de dominar a arte da maquilhagem para que eu pudesse apoiar as pessoas importantes da minha vida. Em minha própria jornada para encontrar valor e beleza internas, percebi uma missão em ajudar pessoas que sentiam o mesmo que eu”, afirma.

Monge de salto alto

De volta ao Japão, Nishimura já era um maquilhador estabelecido quando iniciou a sua preparação para ser monge budista. Lembra-se da cena na saída do banho descrita acima? Na sequência, o jovem curioso fez uma série de perguntas embaraçosas. E Nishimura pensava em como responder. Foi então que colegas intervieram e disseram que o futuro monge era maquilhador e trabalhava em Nova Iorque para o concurso Miss Universo. O curioso ficou surpreso e se calou.

Foram dois anos de preparação, cinco sessões de duas a três semanas de treinamento intenso, divididos entre dois templos, um em Kyoto e outro em Tóquio. Prestes a completar sua formação e obter o certificado de monge, em 2015, Nishimura começou a temer se seria capaz de se expressar. “Nós aprendemos preceitos como ‘não usar perfume’, ‘não beber’, ‘não ouvir música ou dançar’. Não queria insultar ou causar preocupação aos outros monges ao me expressar. Desde da minha época em Nova Iorque,  eu gostava de usar maquilhagem, calçar salto alto e vestir algo brilhante”, diz.

Nishimura, então, foi partilhar a sua preocupação com seu mestre. E ouviu dele que, no Japão hoje, monges usam relógios e vestem roupas casuais. “Se isso ajuda-o a espalhar a mensagem de igualdade de Buda, então eu não vejo problema”, concluiu o mestre, cujo nome Nishimura prefere manter no anonimato.

Modernização do budismo

A aprendizagem de Nishimura reflecte uma tendência verificada no budismo japonês desde o final da Segunda Guerra Mundial. Segundo Ronan Alves Pereira, professor aposentado no seu artigo “O Budismo Japonês: Sua História, Modernização e Transnacionalização”, até o fim do conflito, “budistas de índole mais progressista esforçaram-se para reformar a estrutura e prática feudais dessa tradição religiosa. Alguns associaram-se a socialistas e cristãos unitarianistas, e procuraram harmonizar a doutrina e a prática budistas com ideias modernas relativas à ciência, aos direitos humanos e à sexualidade”.

Com o fim da guerra, “percebem-se contínuos esforços em modernizar o budismo. Esses esforços traduzem-se na tentativa de estabelecer o budismo como a base para ‘um novo humanismo’; no questionamento das doutrinas tradicionais à luz da ciência moderna […]; no esforço em ligar a doutrina com a vida diária das pessoas e com a necessidade de trabalhos sociais”, escreve Alves Pereira.

“Precisamos partir do ensinamento budista, o que está escrito nos sutras [textos religiosos], e mesmo assim Buda nunca os proferiu como um dogma ou mandamento, devendo mesmo ser interpretado, experimentado e contemporizado em tempo e espaço. Há escolas que determinam códigos monásticos rígidos para homens ou mulheres, heteros ou não, e o celibato é um deles. Outras escolas permitem o casamento”, diz Tetsuji.

“Para o budismo, tanto faz você ser hetero ou homossexual, estamos todos no Samsara, o Mundo dos Sofrimentos explicado pelo Buda Shakyamuni. O desejo sexual não determina a sua libertação no Nirvana, mas como ele reage. E o sentido da vida budista é justamente sair desses ciclos de tormentos mentais que permeiam tanto os heteros quanto os LGBTQ+, afinal, independentemente do desejo manifesto, funcionamos todos da mesma forma”, acrescenta.

Entre Buda e celebridades

Nishimura diz ter uma rotina flexível em Tóquio. Como monge, é responsável por conduzir cerimónias como funeral, casamento e eventos sazonais. Também canta o nome de Buda, liturgia que faz parte do Jodo Shu, denominação budista à qual pertence.
No budismo, cada denominação tem as suas próprias regras. No Jodo Shu, espera-se que os monges cantem o nome de Buda para alcançar a Terra Pura. Em linhas gerais, os monges do Jodo Shu devem cantar, estudar e manter-se limpos.

Os monges dessa denominação também têm permissão para casar. O casamento de monges foi permitido durante a era Meiji (1868-1912). Um decreto de 1872 autorizou os monges budistas a comerem carne e a casarem. Na época, a intenção era enfraquecer o budismo no país. Nem todas as denominações adoptaram a regra e continuaram praticando o vegetarianismo e o celibato. Os monges do Jodo Shu adequaram-se ao decreto, acreditando que eles poderiam caminhar junto aos não-praticantes.

No Japão, com a tendência de queda do número de monges budistas, é comum filhos de monges poderem herdar o templo dos pais caso eles também se tornem monges. Esse seria um recurso para permitir a sobrevivência do budismo no Japão.

Na sua denominação, uma vez monge, Nishimura será monge para sempre. Mas, por uma questão de sobrevivência, ele pode procurar trabalho para obter o seu sustento financeiro.

Quando tem oportunidade, Nishimura participa da liturgia junto com o seu pai pela manhã e, à tarde, segue para dar curso de maquilhagem.

Noutras ocasiões, quando está viajando em trabalho como maquilhador, aproveita um breve momento no hotel para meditar. Além de fazer a maquilhagem das candidatas do Miss Universo, Nishimura também faz trabalhos para comerciais, revistas e celebridades, como Andrew VanWyngarden, músico do MGMT, e a dupla Chloe x Halle.

“Eu adoro a forma como consigo viajar e explorar o mundo, tanto como monge quanto como um maquilhador freelancer. Isso me proporciona oportunidades surpreendentes”, diz.

Artigo via TAB e adaptado por Portal do Budismo.